Maior impacto do ‘Brexit’ nos Açores vem do continente e não do Reino Unido

Ainda não se sabe como o Reino Unido vai sair da União Europeia ou até se vai chegar mesmo a sair. Contudo, o dia 31 de outubro, a data prevista para o ‘Brexit’, está a pouco mais de um mês de distância e, por isso, Portugal tem de estar preparado para o pior cenário.

Nos Açores, o ‘Brexit’ não terá um impacto direto e o maior receio dos empresários açorianos é mesmo o impacto indireto na economia regional que terá uma crise em Portugal derivada de uma grande perturbação nas relações comerciais nacionais com o Reino Unido.

Por exemplo, no turismo, é sobretudo o Algarve e a Madeira que estão mais preocupados com o ‘Brexit’, uma vez que, nos Açores, os britânicos representam apenas 2,7% das dormidas de estrangeiros.

Contudo, o impacto do ‘Brexit’ no turismo açoriano pode ser indireto, porque se houver uma grande redução de britânicos no Algarve e na Madeira, isto pode levar a hotelaria destas regiões a entrar numa política muito agressiva de preços para ir buscar mercados alternativos e aí os Açores podem ser afetados.

Curiosamente, Portugal exporta quase o dobro do que aquilo que importa do Reino Unido. Mas o que é que Portugal exporta?

Maquinaria de média tecnologia, componentes automóveis, calçado, papel e, claro, serviços turísticos. E com a exceção do turismo, nada do que Portugal exporta para o Reino Unido é relevante para a economia dos Açores.

E se o turismo em Portugal vai perder com a desvalorização da libra britânica, que já se está a verificar, em destinos onde não há turismo de massas britânico, como é o caso dos Açores, até podem surgir oportunidades.

Isto caso os Açores se posicionem em segmentos mais altos, onde a perda de poder de compra por via da desvalorização da libra não seja um fator determinante na escolha do destino.

Mas o ‘Brexit’ também pode trazer oportunidades para os Açores noutros produtos, por exemplo, nos queijos.

Os laticínios dos Açores não estão no Reino Unido, mas caso os maiores exportadores europeus de queijos tenham problemas após o ‘Brexit’, isso até poderá abrir mercado para entrada dos laticínios açorianos no Reino Unido.

Os desafios e as oportunidades para as Pequenas e Médias Empresas (PME) com o ‘Brexit’ foi o tema de um seminário que ontem se realizou em Ponta Delgada, numa organização da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), em colaboração com a Câmara do Comércio e Indústria dos Açores (CCIA), entre outras entidades.

Conforme referiu o diretor da rede externa da AICEP, Pedro Patrício, a indefinição sobre o ‘Brexit’ ainda é muito grande, pelo que nesta fase o mais importante é informar as empresas em todo o país sobre os vários cenários e sobre como elas se podem preparar para a saída do Reino Unido da União Europeia.

Conforme afirmou Pedro Patrício, “o que nos compete fazer é preparar as empresas para os possíveis cenários” que possam resultar de um ‘Brexit’, com ou sem acordo com a União Europeia.

Refira-se que o Reino Unido é o maior mercado das exportações de serviços de Portugal (com o turismo em destaque) e o quarto maior mercado nas exportações de bens, havendo mais de quatro mil empresas em Portugal a exportar para o Reino Unido, numa balança comercial que é claramente favorável a Portugal.

Por seu lado, Mário Fortuna, da direção da CCIA e que falou na qualidade de anfitrião do evento que se realizou ontem em Ponta Delgada, lembrou que a economia açoriana “não tem muitas ligações diretas com o Reino Unido mas tem com Portugal continental e o que acontecer a nível nacional influencia os Açores, pelo que para nós é importante saber quais serão os impactos do ‘Brexit’ a nível nacional”.

O seminário foi encerrado pelo secretário regional Adjunto da Presidência para as Relações Externas, Rui Bettencourt, que começou por citar o antigo presidente da Comissão Europeia, o português Durão Barroso, ao lembrar que o ‘Brexit’, mais do que um vírus, está a funcionar como uma vacina para a União Europeia, que se uniu em torno do combate ao populismo e à desagregação.

Rui Bettencourt salientou que apesar do Reino Unido ser um importante contribuinte direto da União Europeia - um argumento muito usado pelos defensores do ‘Brexit’ - também é verdade que tem benefícios indiretos para sua economia pelo facto de estar na União Europeia muito superiores ao valor das suas contribuições.

O secretário regional com a pasta das Relações Externas revelou ainda que está a ser feito um levantamento em todos os departamentos do Governo Regional sobre os potenciais impactos do ‘Brexit’ nos Açores, não tendo sido até agora detetados impactos diretos significativos.

E mesmo os que possam surgir num futuro próximo, como os relacionados com a chegada de turistas ou o comércio de produtos, estão em áreas tuteladas pela Administração Central e não pela Região.

Só na Saúde, a Região poderá ter de acertar com o Reino Unido as questões relacionadas com o tratamento de britânicos nos Açores.

Conforme concluiu Rui Bettencourt, “não prevemos impactos diretos significativos” do ‘Brexit’ nos Açores.


Fonte: Açoriano Oriental